Ela chegou em casa. Largou as malas no chão do quarto e olhou ao redor. Tinha sido uma viagem longa e Marisa estava cansada.
Tudo estava exatamente como sua esposa havia deixado, cada coisa no seu devido lugar. Ela se atirou na cama. Cassandra, sua esposa, sentou ao seu lado e acariciou seu rosto, perguntando como fora a viagem.
“Nunca havia pensando que essa viagem pudesse ser tão estressante”, respondeu.
Reencontrar suas irmãs, Miriam e Nadine, havia sido muito bom. Fazia muitos anos que as três não se reuniam.
“Porque? ”, Cassandra perguntou.
“A necessidade de controle de Miriam conseguiu me tirar do sério e acabamos discutindo. Nadine teve que intervir para apaziguar a situação”.
Marisa era a mais nova das três. Sempre teve um temperamento difícil, se irritava com facilidade, nunca foi muito boa em expressar ou lidar com seus sentimentos. Aos poucos, aprendeu a descontar seus sentimentos na comida. Depois que os pais se separaram, Marisa acabou indo morar com a mãe em outro estado, afastando-se das irmãs e do pai. Foi onde conheceu Cassandra, que conseguia tirá-la de sua zona de conforto e ver os fatos da vida como eles realmente eram. Também foi Cassandra quem a ajudou a perceber, aos 38 anos, que ela era autista.
Nadine era a irmã do meio, um ano mais velha que a caçula, era a mais magra das três, e Marisa sempre achou que ela fosse a mais bonita. Nadine era arquiteta, se casou com um rapaz legal, meio “nerd”, e foi morar nos Estados Unidos, o que ajudou a tornar os encontros entre as três algo cada vez mais raro. No entendimento de Marisa, Nadine, talvez por estar mais afastada, era a que conseguia ver as coisas com mais clareza.
Miriam, a mais velha das três, tinha quatro anos a mais que Marisa. Por muito tempo, Marisa a via como um modelo a seguir. Mas o divórcio dos pais quebrou toda a ilusão que ela tinha sobre a irmã e a relação entre as duas nunca mais foi a mesma. Miriam era casada e tinha dois filhos, Renato, agora com 12 anos, e Thiago, com 8. Marisa amava os sobrinhos, e se preocupava com eles, por causa da personalidade controladora da mãe deles.
O pai delas se casou novamente, e Miriam ainda apresentava muitas dificuldades em aceitar a madrasta, apesar de os dois já estarem juntos havia quase quinze anos. Miriam chegou até a manifestar um desejo de controlar o contato dos seus filhos com a nova esposa do avô.
Nadine e Marisa tiveram certa dificuldade em aceitar a madrasta no começo, mas com o tempo acabaram por aceita-la. Marisa às vezes pensava ter com ela uma relação um pouco melhor com ela do que com a própria mãe. Na verdade, Marisa sempre teve uma relação meio conturbada com seus pais.
Aquela reunião entre as três foi planejada por muito tempo. Organizada por Miriam, é claro, e teve lugar em sua casa. Marisa não queria ir, mas foi à reunião meio que à força. Sua esposa a convenceu a ir, disse que seria bom para ela rever as irmãs, já que nem sempre tinham essa oportunidade de se reunir.
“Porque vocês discutiram? ”, perguntou Cassandra.
“Porque ela não aceita que eu tenha parado de ir à igreja, e acha que é por isso que eu virei lésbica. Eu respondi que sempre fui assim, e ela não gostou de ouvir isso, disse que deus não me fez assim”.
“E aí? ”
“A Nadine interviu, para acalmar as coisas, porque a Miriam é muito controladora, quer que tudo seja do jeito dela. Depois disso, as coisas foram mais tranquilas, os guris e o meu cunhado apareceram. Fomos jantar na casa da minha mãe. No geral, a viagem até que não foi ruim, mas é muito bom estar de volta em casa”.
“E como foi com a sua mãe? ”, Cassandra perguntou.
“Se você acha que eu sou teimosa, devia conhecer a minha mãe”.
Cassandra respondeu com uma risada.
“A minha mãe agora me respeita mais, coisa que não acontecia alguns anos atrás”.
“Que bom”.
Marisa continuou:
“Acho que agora ela está percebendo que estou mais independente”.
“É, pode ser”, Cassandra concordou. “Você deve estar cansada da viagem. Descanse um pouco, depois conversamos mais”.
Exausta da viagem, Marisa adormeceu rapidamente, feliz por estar finalmente de volta em casa.
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