De repente, o riso das crianças se foi. Elas desapareceram num piscar de olhos. O que aconteceu com elas? Ninguém, na verdade, sabe. Ao andar por esses corredores, quase posso ouvir seus risos e gargalhadas, correndo pelos cômodos da casa.
Mas tudo sumiu, o riso e as gargalhadas se foram, de uma vez só. Os risos deram lugar ao choro. As corridas alegres deram lugar a uma fuga desesperada. As gargalhadas se tornaram em gritos. Tudo isso a um só momento.
Mães foram separadas dos filhos. Vejo mãos pequenas sendo puxadas para longe, contra a vontade. As risadas de criança se tornaram em gritos de “mamãe, socorro! Eu não quero ir! ”.
Essa é a impressão que tenho ao adentrar neste lugar. Tudo parece ter sido abandonado de um instante para o outro, como se, de repente, esse lugar se tornasse perigoso e sombrio. Estou sozinha aqui, mas tenho a nítida sensação de que tem alguém atrás de mim, me vigiando. Observando minhas atitudes e intenções ao estar aqui.
As crianças olham para mim, por detrás das portas. Sinto seu desesperado pedido de socorro, e meu coração se aperta dentro do peito, pois não posso fazer nada. Tudo o que vejo acontecendo aqui, para ser sincera, já aconteceu. Há muito tempo atrás. Talvez há mais de vinte anos.
A julgar pelos objetos que foram deixados para trás, a mobília principalmente, tudo aconteceu muito rápido. A família que morava aqui saiu às pressas e nada foi levado. Vejo brinquedos de criança pelo chão. Um cadeirão de bebê na cozinha. A casa é grande, e me parece que haviam pelo menos três crianças nessa casa. Um menino e duas meninas, talvez. Depois de todos esses anos, é impossível dizer com certeza.
Eu me pergunto o que teria feito essa família abandonar a casa de uma forma tão apressada. O que aconteceu aqui? Há roupas espalhadas pelo chão. Móveis nos quartos. Armários na cozinha. Pelo modo como as coisas estão espalhadas, deduzo que vândalos já estiveram por aqui. Depois de tanto tempo, seria de estranhar que alguns moradores de rua ou outros ladrões não tivessem explorado a casa ainda.
A pergunta que não quer calar em minha mente é: para onde essa família foi e porque saíram daqui tão apressada? Deixaram tudo para trás! Documentos, papéis espalhados pelo chão.
A poeira recobre cada canto, cada cômodo. A natureza tomou conta das entradas da casa, e preciso me desviar de algumas plantas para entrar e sair daqui.
Ao deixar esse lugar, ainda fico com a dúvida insistente na minha cabeça: o que diabos aconteceu aqui?
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